19.11.09

Folha indiscreta


Fiquei parada por um tempo diante de uma folha em branco.
Ela, capciosa, insinuou:
- Vamos, devora-me!
Passaram-se minutos e ela toda límpida a me provocar.
Naquele dia nada me faria tingir seu corpo pálido e sedutor. Por mais que cores absurdas rondassem a minha cabeça, não havia como pintá-la de forma realista ou surreal.
Fui devorado por ela.

31.10.09

Goles de


8.10.09

Sobre professores e sonhos

Arthur, aos 3 anos, quer ter uma professora

Ainda não sabia ler, mas as frases escritas no papel me intrigavam. Via a escola como um lugar encantado, onde o professor era o guardião dos segredos, o responsável por me colocar em contato com o mundo da palavra. Por esse motivo, elegi o professor como o herói de todas as histórias. Não havia outro mais capacitado para ocupar esse lugar. À família caberia ensinar bons modos. O professor provocaria mudanças mais profundas.
Esses dias essa sensação me veio à memória através do meu sobrinho de três anos, o Arthur. Ele está passando um tempo com a avó, em Tupi Paulista, e ao chegar de viagem disse que queria entrar na escola e ter uma professora. O motivo foi revelado. O Arthur estava sob os cuidados de uma senhora que tinha duas filhas e, segundo ele, as meninas o chamavam de burro. Ele ficou triste porque não queria ser burro e comentou com a mãe, com o pai e depois com a avó. Muitas vezes, alguns acontecimentos passam despercebidos pelos pais, mas para o pequeno Arthur, ficou marcado. Dentro de sua cabecinha, ainda com poucas informações e experiências, ele compreendia que a escola e o professor poderiam salvá-lo de tal condição.
É interessante anotar a visão dessa criança. Muitos podem não concordar com isso hoje, pois a escola tomou rumos diferentes. Por culpa da sociedade, do governo, dos alunos, da família? Não importa. De nada adianta buscar culpados. Estamos todos no mesmo barco. O professor é o profissional na sala de aula e um integrante da família lá fora. Não é perfeito, assim como o aluno e o governo não são. Mesmo tendo perdido um pouco a visão encantada da escola, acredito que a essência dessa instituição é, sem dúvida, o professor, e que não há espaço mais adequado para promover o saber.
Aprendi, sendo aluna e professora, que a busca inocente do meu sobrinho, a minha e de tantos outros alunos é só uma parte do que se pode encontrar no ambiente escolar. Na escola, podemos tirar proveito dos conteúdos para passar no vestibular e ter um emprego. Mas o que mais me tocou nos anos de ensino fundamental e médio não foi apenas a transmissão de conhecimento tirado de livros e apostilas. Para isso, bastava saber perguntas e respostas. O que mais me marcou em sala de aula foi como os professores me provocaram. Na verdade, a palavra “provocar” é ótima para dar sentido à escola. A escola, ou melhor, meus professores e poderia dizer aqui o nome de todos, me provocaram a ser uma pessoa melhor, a superar meus limites, a acreditar nos meus sonhos, a buscar algo mais do que uma profissão. Espero que meu sobrinho encontre professores que o provoquem no bom sentido. Torço para que os professores descubram no aluno o que ele tem de melhor, mesmo se esse aluno tiver falhas e limitações.
No fundo, buscamos na escola mais do que um caminho para o sucesso profissional. Temos necessidade de sermos inspirados, humanos que somos, a conquistarmos mais do que uma vaga no mercado de trabalho, um carro na garagem e uma casa própria. Professores nos provoquem, no bom sentido, e nos ensinem a provocar melhores ideias e ações, para renovarmos com criatividade e humanidade a estrutura engessada da sociedade onde vivemos; ensinem-nos a sonhar, apesar da dura realidade; conduza-nos a diferentes visões de mundo, para que possamos enxergar os abismos que criamos entre nós mesmos; e nos mostre que a escola é um ambiente onde, de fato, podemos expressar quem somos para sabermos no que queremos nos transformar.

5.10.09

Sobre o olhar




Eu vou avisar, vai ser difícil ler este post. Só continue se tiver um pouco de determinação. Não quero te desanimar, mas ver e enxergar não depende só de olhar. Entender não depende só de compreender um sentido. Há mais para perceber. (Passe o mouse para ler as palavras invisíveis ou quase invisíveis, vai depender da sua percepção).


O post não deveria ser "Sobre o olhar", a escolha é apenas uma estratégia. O mais adequado seria "sobre o ver e o enxergar". Muita gente ia ler, torcer o nariz, pensando se tratar de um assunto banal... ah eu enxergo, esse post não me interessa. Para que saber sobre ver e enxergar? Dá no mesmo. E iria embora sem experiementar. "Sobre o olhar" atrai pelo sentido que pode provocar no outro. É algo sobre saber olhar, paquerar o ter um olhar sedutor? Mexeria com o lado afetivo. Isso é o que eu acho. Mas vamos experimentar.

Captamos o mundo, principalmente, pelos olhos, a chamada janela da alma. Por um lado, ver através dos olhos, não exclui os outros sentidos conhecidos e desconhecidos, perceptíveis ou não. Muitos veem perfeitamente as imagens ou acha que vê o que parece ser uma imagem, mas não enxergam totalmente. O ver se tornou banal, não basta olhar, captar cores, formas, densidade. Para ler e ver o mundo é preciso usar todos os sentidos. Para permitir o ver além é preciso treino e outros atributos muito mais abstratos do que apreendidos socialmente. O olhar pode expandir para outros partes do corpo e do não-corpo, favorecendo uma "visão" mais ampla e aprofundada das coisas. E para quê? Só vendo pra saber. Ver, perceber, compreender depende mais de como nossos olhos e sentidos filtram, mascaram e distorcem as coisas. Será que o que vemos é? Por que vemos assim? Há mais para ver além do visível?




Para ler:

“Mas nós estamos realmente cegos. Cegos da razão, da sensibilidade...”
José Saramago, escritor português, Prémio Nobel de Literatura



“A janela não olha. Quem olha é o olho, através da janela”
Antônio Cícero, poeta


“Felizmente a maioria das pessoas consegue ver com os ouvidos, ouvir e ver com
o cérebro, o estômago, a alma.”
Wim Wenders, cineasta alemão


“O ato de ver, de olhar, não é só olhar lá fora. Não é só o olhar para o visível,
mas também para o invisível. De certa forma é isso que chamamos de imaginação.”
Dr. Oliver Sacks, neurologista e escritor inglês

Para ver:

JANELA DA ALMA - De João Jardim
Brasil, 2002 - Duração 73 minutos


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - De Fernando Meirelles
Baseado no livro de mesmo nome do escritor José Saramago
Brasil, 2008 - Duração 111 minutos

1.10.09

Brotou saudade


De tanto querer saber o porquê, nasceu um pé de saudade no meu coração. As raízes se fixaram e tomaram conta do corpo, como sangue nas veias, como nuvem no céu. A saudade não se conteve, buscou novos espaços na moldura da alma. Um certo dia, ao olhar-me no espelho, vi algo que parecia uma saudade exposta, como fratura. Rezei, eu que não sou de rezar, para que o outono levasse suas folhas. Uma boa poda poderia amenizar. Seria estranho sair por aí com um pé de saudade plantado no coração. Caso proliferasse por outras partes do corpo, ficaria bizarro. Eu viraria saudade. Saudade de corpo e alma. Todas as noites, ao dormir, ela me exigia cuidados especiais. Queria um travesseiro macio e uma cama perfumada. Dizia que assim ficaria mais confortável. Às vezes, durante o sono, percebia que ela sonhava. Sorria, chorava. Um dia acordei e a saudade estava soluçando. Peguei-a pelos braços e a fiz adormecer. Com o tempo, me acostumei com suas nuances. Depois do inverno, a saudade floriu na primavera. Resolvi deixá-la tomar seu rumo. Aos poucos percebi que ela só queria um lugar tranquilo para viver em paz. (Erica Franzon)

*A ilustração é do blog Maria Valentina.

30.9.09

Blog de cara nova

Bem-vindos ao novo cabeçário queridos leitores e leitoras! Deu vontade de mudar. Fiz algumas tentativas de que gostei, mas optei por um estilo mais leve e feminino. Quando cansar da cara dele, eu mudo de novo, até encontrar um que fique "para sempre". Caso queiram dar uma opinião, um retoque qualquer... aceito sugestões.













28.9.09

Despropósitos



Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água o mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos a mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

(O menino que carregava água na peneira - Manoel de Barros)

*A ilustração é do blog Maria Valentina
Vale a pena conhecer. São todas muito interessantes.